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O direito de mostrar o rosto
(Moacyr Scliar - jornal Zero Hora, 25/07/2010)
É possível que, forçadas a escolher entre sua religião e as leis de um país, as muçulmanas se apeguem ao véu como forma de desafio
| Na próxima semana, estarei na Flip, a já lendária Festa Literária de Paraty, onde participarei em várias atividades, uma das quais aguardo com muito interesse. Coordenarei um painel em que participam dois escritores famosos, o israelense A. Yeoshua e a iraniana (exilada) Azar Nafisi. Se tivesse nascido no Brasil, Azar poderia dizer que seu nome condicionou um destino; de fato, não foram poucas as atribulações pelas quais passou. Filha de um casal conhecido no Irã (o pai foi prefeito de Teerã, a mãe, deputada), Nafisi estudou na Inglaterra e graduou-se em letras na Universidade de Oklahoma. Quando os fundamentalistas tomaram o poder no Irã, começaram seus problemas: recusando-se a usar o véu, ela foi proibida de lecionar na Universidade de Teerã e acabou emigrando para os Estados Unidos. Sua história está em dois livros, o best-seller Lendo Lolita em Teerã e O Que Eu não Contei.
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Na briga que envolve o fundamentalismo, o véu é o cavalo de batalha, por causa de sua visibilidade e pelo contraste que representa em relação aos costumes ocidentais. Os homens também precisam manifestar sua opção religiosa através de sinais externos: não usam gravata, deixam crescer a barba, o que aliás é uma tradição antiga no Oriente Médio, onde a face glabra de gregos e romanos era vista como coisa obscena; a barba também foi adotada pelos revolucionários cubanos como símbolo. Barba não chega a ser coisa insólita, e tampouco as formas, digamos, mais moderadas de véu; mas o nicab, que cobre o rosto, deixando descobertos apenas os olhos, e a burca, que até os olhos oculta mediante uma tela quadriculada, realmente chamam a atenção e não raro despertam hostilidade. Não é de estranhar que a Assembleia Nacional francesa tenha aprovado (335 votos a favor, um contra) projeto de lei proibindo o uso do véu islâmico na sua forma integral nas ruas e em locais públicos. A pena é de multa, relativamente pequena para a mulher que usa o véu, e muito alta para quem obriga a mulher a usar o véu.
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A medida está dentro da tradição laica e liberal da França, mas mesmo assim provocou polêmica. Em primeiro lugar porque são relativamente poucas (menos de duas mil) as mulheres que usam nicab e burca. Depois, porque a medida, ainda que tenha fundamento lógico, pode provocar um efeito paradoxal. É possível que, forçadas a escolher entre sua religião e as leis do país, as mulheres muçulmanas se apeguem ao véu como forma de desafio, aumentando ainda mais o conflito que já existe entre os 5 milhões de muçulmanos que vivem na França e a população em geral.
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Nesse caso, e em outros semelhantes, é melhor recorrer ao bom senso. O islamismo não é um todo monolítico; existem dentro dele várias correntes, desde as mais fanáticas, até as mais moderadas. E estas últimas são a favor de uma convivência, mesmo porque o processo de modernização tem muitos adeptos no Oriente Médio, isto apesar do conceito de “choque das civilizações”, popularizado pelo cientista político americano Samuel Huntington e reforçado pelo atentado de 11 de setembro. Seria bom que o movimento contra o véu partisse das próprias mulheres muçulmanas, como parte de um processo de igualdade e liberação. Afinal, mostrar a própria face é um direito de todos os seres humanos. Um direito que fanatismo algum pode abolir. |